Parece que foi ontem e eu trelava na
beira do rio inventando poetar sem nem saber direito. Tanto que no primeiro dia
da escola, a professora do primário perguntou: O que você quer ser quando
crescer? Todos os meus coleguinhas de classe haviam escolhido aquelas
profissões que dignificavam ser gente grande. Eu, ao contrário, coisa de louco:
Quero ser poeta! - Poeta? -, perguntou a professora com o semblante mais sem
graça, como se dissesse consigo mesma: Não tem coisa melhor, não? Logo ela, a
maravilhosa professora da Escola Fraternidade Palmarense, Hilda Galindo Corrêa,
filha do legendário dramaturgo Lelé Corrêa. E como os coleguinhas todos os dias
levavam presentes pra ela, eu sempre esquecia. Mas não passava batido: todo dia
sapecava umas quadrinhas infantis e entregava pra ela no final da aula. Se ela
se embevecia com isso ou não, pouco importa. Porém, um dia lá, eu já aluno do
ginasial, mais que amostrado entre os poetas da cidade e gritando aos ventos
meus versos endoidecidos, ela me fez uma surpresa: entregou-me uma pasta enorme
com várias edições do Suplemento Júnior, do Diário de Pernambuco, com minhas
quadrinhas todas publicadas lá. Por isso digo e repito: a culpa é dela.
O plano de voo mais desajeitado.
Amanhecia a cada dia e a decolagem não tinha destino certo, nem rota, quantas
alternativas possíveis, colisões imprevisíveis, tráfego, intenções nas asas da
imaginação. Como já disse: o meu brevê sempre foi a imaginação. Se bem soubesse
tinha era ficado quieto, mas não: teimava. E como. Sonhos que não há quem
explique, pois nascia na vigília e era pura alucinação, isso no meio do meio
dia. Só eu mesmo: poetar era preciso, viver não.
Olhos oníricos: a minha cabeça no ninho
das quimeras, nas orelhas de asa-delta: onde eu vivo e a galáxia, não há
distância e ansiava alturas. Quantas quedas, hem?
O tempo passou: 20, 30, 40,
quarentantanos artevistas. Mesmo? Nada pra comemorar. Pode até se dizer que são
jactâncias desmedidas. Não, não é. Um dia aprendo. Ainda tenho muito por fazer.
E vamos nessa!
PS: INTROITO ANTES
DO COMEÇO DE TUDO...
Precisava definir a decolagem, quando?
Princípio de conversa, Ora!...
Ah, tinha jeito não: prum menino
treloso da beira do rio feito eu, tornei-me um espalha-brasas virado da breca e
sem um pingo de juízo.
Confesso: fiz de tudo, ou quase. O bom
mesmo é rir das minhas próprias leseiras. Dou boas gaitadas mesmo.
Vamos aprumar a conversa!?!


